sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Na Boa Companhia de HARRY CARR

NA BOA COMPANHIA DE HARRY CARR
José Maurício Guimarães
Harry Carr (foto) foi Iniciado em 1929, Venerável Mestre em 1943, Fundador e Venerável Mestre da Noble Brotherhood Lodge No. 6226. É um dos maiores eruditos da Maçonaria em todo o mundo. Membro, desde 1953, da Quatuor Coronati Lodge n º 2076 de Londres (a primeira do mundo); membro honorário de catorze lojas nos Estados Unidos, dez na Inglaterra, além de outras lojas do Canadá, França, Nova Zelândia e Escócia. Agraciado, em 1953 com o London Grand Rank, Past Assistant Grand Director of Ceremonies da Grande Loja Unida da Inglaterra em 1960, Past Junior Grand Deacon em 1969 e, em 1982 condecorado com a Grand Master's Order of Service to Freemasonry, devido às suas inúmeras contribuições para a cultura maçônica: vários livros e grande número de pesquisas na “Ars Quatuor Coronatorum”. Viajou pelo mundo proferindo palestras sobre a História da Maçonaria e temas correlatos do simbolismo e da filosofia iniciática.
Ufa!, vou parar por aqui para não cansar os leitores com o restante do currículo do Irmão Harry Carr.
- Vocês devem estar se perguntando o motivo dessa apresentação toda e deste modesto panegírico. Fiquem tranquilos – eu não sou candidato a nada; brother Harry Carr também não é. Nem pretendo aparecer abraçado com ele em fotografias.
- O motivo é bem outro: vou prosseguir no palpitante tema da Escada (foto) e seu Simbolismo no Painel do Grau de Aprendiz.
Uma plêiade de estudantes armou uma insigne encrenca (ou arenga) por causa dos meus dois artigos abordando esse assunto. A uns respondi; a outros, não... deixei passar algum tempo até a poeira abaixar...
Já que abaixou, aqui estou de volta – desta vez escudado no brother Harry Carr.
Transcrevo o texto do livro “O ofício do maçom”, editado pela Madras, tradução do Irmão Carlos Raposo (Maçom do Real Arco) e apresentado pelo meu amigo e Irmão João Guilherme Ribeiro (Deputy General Grand High Priest, Latin American RAM International, etc.etc...) A autorização para fazer a transcrição me foi dada pelo Irmão e também amigo Wagner Veneziani Costa, editor da Madras, Grão-Mestre da Grande Loja de Mestres Maçons da Marca do Brasil, Grão-Mestre do Grande Prioriado do Brasil das Ordens Unidas, Religiosas, Militares e Macônicas do Templo de São João de Jerusalém, Palestina, Rodes e Malta, etc.etc...).
Vamos à escada (espero que pela última vez!)
Os símbolos sobre a “Escada de Jacó” no Primeiro Painel - diz Harry Carr - não possuem significados uniformes, sendo praticamente certo que eles foram inserções que ocorreram na metade ou no final do século XVIII, pois não existem indícios deles nos rituais mais antigos. Um exame dos mais antigos Painéis a apresentarem esses símbolos revela pontos interessantes:
(1) Nos Painéis do Oficio, as Escadas estão algumas vezes desenhadas com apenas três degraus, mas elas são freqüentemente compridas, sendo que algumas têm três degraus extras, representando as três virtudes religiosas. A maioria dos desenhos mais conhecidos das Escadas mostra-as com seus degraus superiores desaparecendo entre as nuvens. Entretanto, a Escada não é puramente um símbolo do Oficio, podendo ser encontrada com vários degraus adicionais.
A lenda do sonho de Jacó e da “Escada, cujo ápice alcançava Céus”, encontra-se na Instrução sobre o Primeiro Painel, na Quarta Seção da Primeira Instrução, na qual se diz que a Escada tem “muitos degraus e voltas, os quais apontam para diversas virtudes morais, sendo as três principais Fé, Esperança e Caridade”.
Finalmente, essas três virtudes são descritas e interpretadas, sendo que costumamos dizer que a Escada vem do L:.L:. (na forma como se encontra na maioria das ilustrações do Primeiro Painel), porque ‘pela doutrina contida no Livro Santo, somos ensinados a acreditar na revelação da Divina Providência, cuja crença fortalece nossa Fé, permitindo-nos ascender ao primeiro degrau’.
(2) Os desenhos antigos designam as três virtudes, Fé, Esperança e Caridade, pelas letras iniciais F., E. e C., indicadas entre os degraus. O Irmão T. O. Haunch (em AQC – Ars Quatuor Coronati, vol. 75, pp. 190, 194) acredita que as letras iniciais vieram primeiro e que Josiah Bowring, um famoso desenhista de Painéis, circa 1785-1830, as tenha substituído por imagens femininas. Atualmente, essas imagens aparecem em muitos Painéis, a primeira segurando uma Bíblia, a segunda com uma Ancora e a terceira com crianças abrigadas em sua saia.
Vários desenhos da década de 1870 e posteriores omitiram as figuras, passando a apresentar uma Cruz, uma Ancora e um Cálice apontado por uma Mão. Presumivelmente, o Cálice e a Mão representam a Caridade, mas são ilustrações possivelmente oriundas de alguma mitologia religiosa, descrevendo o Santo Graal elevado ao Céu pela Mão de Deus.
Existem diferentes versões dos símbolos e da disposição deles, porém a maioria dos Painéis que contêm as três figuras também ilustra os anjos do sonho de Jacó, subindo e descendo a Escada.
(3) Se sete virtudes fossem simbolizadas, penso que as quatro adicionais seriam as Virtudes Cardeais, Sabedoria Superior, Justiça, Coragem e Temperança (segundo o Neoplatonismo), ou Prudência, Justiça, Força e Temperança (de acordo com Santo Ambrósio, São Tomás de Aquino e Santo Agostinho), mas apesar de ter examinado um grande número de Painéis antigos, não me recordo de ter visto qualquer uma delas ser simbolizada além das outras três.
(4) A parte as três virtudes, existe mais um símbolo que regularmente aparece sobre a Escada ou próximo dela: uma “Chave”. Bowring, por muito boas razões, apresentou-a pendurada em um dos degraus. A “Chave” é um dos símbolos mais antigos da Maçonaria, sendo mencionada em nossos mais antigos documentos rituais, isto é, o Edinburgh Register House MS., de 1696, bem como em seus textos pares:
P. Qual é a chave de nossa Loja?
A. Uma linguagem bem elaborada.
Muitos dos textos antigos expandiram o simbolismo da “Chave-Linguagem”, dizendo que o mesmo se encontrava alojado na “caixa de osso” (isto é, a boca) e que isso era a chave dos segredos dos maçons. Porém, uma das melhores respostas a respeito dessa questão está em Sloane MS., circa 1700, o mais antigo documento ritual que contém as palavras “a linguagem de boa moda”, preservadas em nossos atuais rituais:
P. Do que são feitas as Chaves de vossa Loja?
R. Elas não são feitas de Madeira, Pedra, Ferro ou Aço, ou de qualquer outro tipo, senão de uma linguagem de boa moda, seja dita às costas, seja à frente de um Irmão
."
- Chamo a atenção para a afirmação de Harry Carr segundo a qual os símbolos sobre a "Escada de Jacó" foram inserções que ocorreram na metade ou no final do século XVIII, pois não existem indícios deles nos rituais mais antigos. Foi esse o raciocínio que adotei para escrever aqueles dois artigos versando sobre a questão. Agiram bem o Grão-Mestrado e a Comissão Ritualística da Grande Loja Maçônica de Minas Gerais quando se decidiram pela remoção do objeto "escadeado" pendente do teto das lojas. A escada é um símbolo DO PAINEL e não da decoração das Lojas, uma vez que a Escada não é puramente um símbolo do Oficio.- A "Escada, cujo ápice alcançava Céus não passa de uma lenda bíblica inserida nas Instruções sobre o Painel da Loja de Aprendiz, mas não consta que noutros tempos, noutras lojas e noutras Obediências (seja no Brasil ou no exterior) haja qualquer coisa que se assemelhe a uma escada oscilando por uma cordinha sobre o Altar dos Juramentos. Se tudo o que vemos nos Painéis SIMBÓLICOS e ALEGÓRICOS tentarmos reproduzir na decoração das lojas... estaremos literalmente fritos!
- As imagens associadas às escadas aparecem em muitos Painéis oriundos de mitologias religiosas (vejam o texto de Harry Carr!) e no indevido "sincretismo" entre Maçonaria e a fé dos piedosos Santo Ambrósio, São Tomás de Aquino e Santo Agostinho.
Maçonaria não é religião. Nosso estudo e nossas práticas são eminentemente laicas.
- FINALIZANDO, nada melhor que a oportuna lição que encerra o texto de Harry Carr: A chave maçônica está no uso das palavras. A linguagem de bons modos não é feita de madeira, nem de pedra, nem de ferro ou aço, mas de Boa Ética, das palavras ditas à frente ou às costas de um Irmão.

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