sexta-feira, 9 de julho de 2010

CABALA

Ir.: Jerônimo José Ferreira de Lucen

CABALA

Divisão: Ao lado da Thorah existe uma tradição destinada a explicá-la e compreendê-la. Esta tradição estáalicerçada basicamente em dois pontos:
1. Tudo que se refere ao corpo material da Thorah é denominado de Massorah, que é o conjunto
de certas regras fixas sobre a maneira de se ler e escrever os textos do Livro Sagrado.
2. Tudo que se refere ao espírito do texto Sagrado. Subdivide-se em: · Lei – determina as relações sociais do povo entre si, entre vizinhos e entre a Divindade;· Doutrina Secreta – conjunto de conhecimentos teóricos e práticos pelos quais se pode conhecer as relações entre Deus, o Homem . Os comentários à leitura dos textos Sagrados foram transcritos sob o nome de Thalmud e se subdivide em cinco partes:
1. Mishnah, são as tradições dos profetas referentes às festas, ao matrimônio, às oferendas e às
purificações;
2. Ghemarah, é um compêndio de jurisprudência;
3. Midrashim e Targumim, comentários e paráfrases;
4. Thosiphthah, são suplementos;
5. Assim como a Massorah forma o corpo da Tradição, tratando de tudo o que se refere à parte
material da Thorah, o Thalmud representa a vida, por seu objetivo a jurisprudência, os
costumes, as cerimônias e as relações sociais.
A Cabala é a alma ou o espírito da Tradição; é a sua parte religiosa e filosófica. Segundo os antigos, a Escritura Sagrada tem quatro formas de interpretação:
1. Pashut, é o sentido literal ou histórico (corresponde ao átrio do Templo e ao corpo físico);
2. Remmez, é o sentido alegórico, ou uma idéia sob forma figurada (corresponde à região dos
altares de sacrifícios e à psique);
3. Derush, é o sentido moral (corresponde ao Lugar Santo e à Alma);
4. Sod, é o sentido místico ou metafísico (corresponde ao Santo dos Santos e ao Espírito).
Vejamos a disposição dos oficiais em Loja, em concordância com a Árvore Sephirot:

KETHER
Coroa
Venerável (Júpiter)
BINAH
CH
OCHMAH
Sabedoria...............................................................................................Inteligência
Orador (Sol) Secretário (Lua)
GEBURAH TIPHERETH
CHESED
Força/Beleza.........................................................................................Graça
Tesoureiro / M.: Cerim.: Hospitaleiro (Mercúrio)
HOD
NETZAH
Vitória.....................................................................................................Glória
1º Vigilante (Marte) 2º Vigilante (Vênus)
IESOD
Fundamento
Experto (Saturno)
MALKUTH
Reino
Cobridor
Onde, de acordo com o esquema sephirótico podemos imaginar um homem deitado de costas, no
Templo, a sua cabeça é o Venerável; seus braços, o Orador e Secretário; suas mãos, o Tes.: e o Hosp.:; suas pernas e pés, os dois Vvig.:. Quando se trata de Macro e Microcosmos, podemos visualizar o Templo como sendo Universal, unindo-se em linhas retas, o Ven.: , Orad.:, Sec.: e os dois Vvig.: teremos o Pentagrama ou estrela de cinco pontas; se adicionar mais um ponto, o Cob.:, teremos a estrela de seis pontas, ou o Selo de Salomão, que nada mais é do que dois triângulos com os seus ápices invertidos, o ápice para cima significa o plano Espiritual, o ápice para baixo, o plano material. O Venerável é Júpiter, o Mestre dos Céus; nele domina a Sabedoria. KHETER – A coroa – o primeiro caminho, chama-se Inteligência Admirável, ou Oculta, pois é a Luz que concebe o poder da compreensão do Primeiro Princípio, que não tem começo. É a glória Primordial, pois nenhum ser criado pode alcançarlhes a essência, O Altíssimo. O Primeiro Vig.: é Marte, deus guerreiro, cujo Vigor e Força devem ser inflexíveis. HOD – A Sabedoria – chama-se Inteligência Iluminadora. É a Coroa da Criação, o Esplendor da Unidade, que a iguala. É exaltada sobre as cabeças, e os cabalistas a chamam de “A Segunda Glória”, Pai Cósmico, o princípio masculino. A sabedoria ou o conhecimento ilimitado, o princípio ativo, encabeça a coluna JACHIM ou BOHAS no templo de Salomão, ou o pilar da Misericórdia. O Segundo Vig.:, é Vênus, a doce bela, é a Graça, é o oposto de Marte que é a força masculina; os dois se completam. NETZACH – Vitória – Chama-se Inteligência Oculta porque é o esplendor refulgente das virtudes intelectuais percebidas pelos olhos do intelecto e pelas contemplações da fé. Encabeça a coluna JACHI ou BOAHAS no Templo de Salomão. O Orador é o Sol; domina Júpiter enquanto planeta; é o Guardião da Lei; em casos particulares, domina o Venerável. CHOCHMAH – é a Severidade, ou a Justiça, o árbitro do Desperdício, a Lei, a Ética ,o rigor divino. O Secretário, a Lua, reflexo do Sol, registra fielmente tudo que emana do Orador. BINAH – Fundamento – Chama-se Inteligência Pura, porque purifica as Emanações. Ele prova e corrige o desenho de suas representações e dispõe a unidade em que elas estão desenhadas, sem diminuição ou divisão. Mestre de Cer.; - TIPHERET – a Beleza – Chama-se a Inteligência Mediadora, pois nele se multiplicam os influxos das emanações, fluindo essas influências para todos os reservatórios de bênçãos com que se unem. O coração da Árvore da Vida. Nele a Luz se transforma em amor irradiante e este na vida.
Hospitaleiro – CHESSED – Misericórdia – Chama-se Inteligência Coesiva ou Receptiva, porque
contém todos os poderes sagrados, dele emanando as virtudes espirituais com as suas essências mais requintadas. Tais poderes emanam uns dos outros por virtude da Emanação Primordial.
Tesoureiro – GEBURAH – Entendimento –Chama-se Inteligência Santificadora, Fundamento da
Sabedoria Primordial, chama-se também Criadora da Fé, e suas raízes são o Amém. É a mãe da fé, a fonte de onde emana a fé; a mãe cósmica, o princípio feminino, a compreensão ou a Razão. O conhecimento limitado, o princípio passivo, encabeça a coluna BOHAS to Templo de Salomão, ou o pilar da Severidade (Justiça). O Cobridor externo –MALHUTH - é Mercúrio, o mensageiro dos deuses; é ele quem anuncia ao Cobridor Interno os IIr.: que vêm se apresentar e que pedem admissão. O Cobridor interno, é Saturno, o deus prudente; é ele que anuncia a presença daqueles que ele julgou dignos de adentrar ao templo. IESOD – Reino – Chama-se Inteligência Resplandescente, porque é exaltado sobre as cabeças e tem por assento o trono de BINAH. Ele ilumina os esplendores de todas as Luzes, fazendo emanar a influência do Príncipe dos Rostos, o Anjo de KETHER.

A MAÇONARIA NO BRASIL – DE 1816 A 1833

Ir.: Antônio da Rocha Fadista

Este trabalho é baseado em questões, cujas respostas se fundamentam nas pesquisas realizadas.
Por que D Pedro foi eleito maçom e em tão pouco tempo Grão- Mestre, e de que forma isso se fazia necessário para a independência? Dom Pedro era um jovem de temperamento irrequieto, temperamental, e às vezes irascível. Era, sobretudo, inexperiente nas lides políticas e suas malícias. Estas facetas do caráter do príncipe foram muito bem exploradas por J.Bonifácio, que deste modo pôde usar com tamanha habilidade a sua persuasão, que conseguiu que ele, já em 17.02.1822, proibisse o desembarque, no Rio, das tropas portuguesas comandadas pelo general Jorge Avilez.Tudo era válido para influenciar e pressionar o Príncipe, para induzi-lo a fazer a independência do país. Foi isto que levou Bonifácio a convidá-lo para ingressar no Apostolado e na Maçonaria.Para isso, José Bonifácio teve, primeiro, de entrar na Maçonaria, valendo-se do prestígio do seu cargo de Ministro do Interior.
Na realidade, J.Bonifácio foi um inimigo da Maçonaria, que nunca foi iniciado, e só aceitou o convite sugerido para nela ingressar visando a trazer a Ordem para a sua área de influência e para fazer dela um instrumento de prestígio junto ao príncipe, a quem convidou para nela ingressar.
Em 10.04.1822 J.Bonifácio colocou a sua assinatura em uma Ordem ao Intendente de Polícia “mandando cercar por força armada os ajuntamentos da Maçonaria, prender todas as pessoas encontradas e fazer a apreensão de todos os papéis” Pouco depois de chegar de Portugal, em 1819, J. Bonifácio foi convidado para ingressar na Maçonaria carioca pelo Capitão-Mor, Irmão José Joaquim da Rocha, em cuja residência, à rua da Ajuda, 64, os maçons se reuniam. Ao convite, J. Bonifácio respondeu textualmente: “O entusiasmo da Maçonaria no Brasil não passa de fogo de palha”. E não entrou. “Organizada como estava a Maçonaria no Rio de Janeiro em 1822, foi NOMEADO para GRÃO-MESTRE da Ordem José Bonifácio, que se improvisou maçom, sem o ser” Isto é afirmado num manuscrito de Mello Mattos, contido na obra “Documentos para a História da Independência” de autoria do Cônego Geraldo Leite Bastos, falecido em 1863.
Foi o Irmão Mello Mattos, iniciado antes de 1812, que recebeu o Príncipe Dom Pedro à porta do templo, quando foi iniciadomaçom em 2.08.1822.
Muitas vezes a Maçonaria européia aclamou profanos para o cargo de Grão-Mestre, especialmente em situações políticas difíceis, o que era o caso do Brasil na ocasião.
Mesmo aclamado Grão-Mestre do GOB, José Bonifácio não morria de amores por Gonçalves Ledo, seu Primeiro Grande Vigilante, pois o sabia o chefe reconhecido e de fato do partido liberal do Rio de Janeiro, e na realidade o verdadeiro mentor e guia espiritual da Maçonaria no Brasil da época. Na ausência de José Bonifácio, foi Ledo que, dirigindo os trabalhos do GOB, propôs, e a assembléia aprovou por unanimidade, que Dom Pedro assumisse o cargo de Grão- Mestre do GOB. Isto aconteceu na sessão especial de 04.10.1822, esclarecendo Ledo ao início dos trabalhos, que a convocação fora feita para “receber o Juramento do nosso amável e muito amado Irmão Guatimosim, eleito Grão-Mestre da Maçonaria Brasileira, por aclamação, em plena reunião do Povo Maçônico....” como diz textualmente a Ata. São várias as provas de que José Bonifácio usou a Maçonaria para aumentar a sua influência sobre Dom Pedro, visando concretizar os seus projetos pessoais e familiares. Em 05.10.1822, quando o Príncipe D. Pedro dirigia os trabalhos do GOB, na qualidade de seu Grão-Mestre, José Bonifáciotransmitiu ao Desembargador João Ignácio da Cunha “denúncias contra a Maçonaria, mandando aumentar o número de espiões
e secretas, e ordenando a lei marcial”. Mas foi o próprio Imperador Dom Pedro I que documentou para a história como agia José Bonifácio em relação à Maçonaria. Em
artigo que publicou no Diário Fluminense em 1829, sob o pseudônimo de P. Patriota, Dom Pedro escreveu: “Quem poupa os inimigos nas mãos lhes morre. Aí estão os ANDRADAS, com o velho sábio à frente. Cuidado com este,Fluminenses! Ele não fez a Independência, como vivem a basofiar os seus amigos. Foi o Imperador, com o Ledo e o Clemente Pereira, foi o Grande Oriente, do qual J. Bonifácio foi inimigo depois de ter sido seu Grão-Mestre. O velho Andrada apenas acompanhou a onda. Dom Pedro perdoou-lhe. Ele voltou, a agitação começou, o mar está bravo, mas se ele fizer conspiração como em 1823, a lei e o imperador serão inexoráveis, sem piedade para ninguém”. (Revelações Históricas para o Centenário –Assis Cintra).
Na 6ª reunião do Grande Oriente, em 19.06.1822, José Bonifácio tomou posse como Grão-Mestre, mesmo sem ter sido iniciado,nem nos graus simbólicos, nem no grau de Rosa Cruz, exigência básica da época para se tornar Grão Mestre. Sabia bem J. Bonifácio que Ledo lhe dera o cargo de Grão-Mestre com o objetivo de fortalecer a Maçonaria e aproximá-la da Casa Real e, se aceitou a nomeação, fê-lo com a intenção de “poder fiscalizar a atividade maçônica no Brasil e dirigi-la de acordo com os seus projetos”. Na sessão de 02.08.1822, José Bonifácio propôs o Príncipe Dom Pedro para ser iniciado, proposta que foi aprovada por unânime aplauso. Sob o comando da Loja Comércio e Artes, foi Dom Pedro iniciado no mesmo dia, e em 05.08.1822 a mesma Loja faria a Exaltação do Irmão Guatimosim, que assim ficou pertencendo ao seu Quadro de Obreiros. Por que Dom Pedro determinou a prisão dos irmãos e o fim dos trabalhos no GOB?
Em sessão realizada no dia seguinte ao de sua posse, a 05.10.1822, o novo Grão-Mestre foi saudado pelo Brigadeiro Domingos Alves Branco Muniz Barreto que, de modo inflamado, o previne “contra os coléricos, os furiosos” e “os embusteiros” que “para seus sinistros fins particulares, buscam minar o edifício constitucional”. Esta já era uma previsão do golpe que estava sendo preparado e iria ser desfechado por José Bonifácio e seus simpatizantes. Seria a sessão seguinte, de 11.10.1822, a 19ª e última sessão do GOB em sua primeira fase. E foi esta também a última sessão presidida por Dom Pedro, isto um dia antes de sua aclamação como Imperador, realizada em 12.10.1822. Três dias depois da aclamação, a 15.10.1822, um grupo a serviço do ministro rancoroso e vingativo, “colérico e furioso”, passou a espalhar o boato de que Ledo e seus simpatizantes pretendiam provocar uma completa reforma no Ministério, com o afastamento dos Andradas. Isto foi suficiente para que fossem expedidas ordens ao Intendente de Polícia para exercer severa vigilância sobre os “perversos carbonários e anarquistas” E, apenas 18 dias depois de ter sido empossado no cargo de Grão-Mestre, o agora Imperador, envolvido pelas intrigas de José Bonifácio, dirigiu a Gonçalves Ledo o seguinte bilhete, em 21.10.1822:"
Meu Ledo
Convindo fazer certas averiguações, tanto Públicas como Particulares na Maçonaria, mando, primo como Imperador, segundo como Grão-Mestre, que os trabalhos Maçônicos se suspendam até segunda ordem Minha. É o que tenho a participar-vos. Agora, resta-me reiterar os meus protestos como Irmão.PEDRO GUATIMOSIM G.’.M.’.

P.S. – Hoje mesmo deve ter execução e espero que dure pouco tempo a suspensão porque em breve conseguiremos o fim que deve resultar das averiguações. (Documento encontrado no arquivo do Castelo D’Eu.

Mas Gonçalves Ledo não cumpriu a ordem. Preferiu entender-se com o Imperador e Grão-Mestre, que reconheceu ter sido vítima dos ódios do seu próprio ministro, aumentado pelos zelos de haver a Maçonaria conferido a ele, chefe de Estado, o grão malhete. Assim, resolveu o Imperador mudar de rumo, ordenando que o Grande Oriente prosseguisse nos seus trabalhos e
cessassem as perseguições. E no dia 25.10.1822 (quatro dias depois da interdição) mandou entregar a Gonçalves Ledo um bilhete que por ser um precioso documento para a História da Maçonaria brasileira, transcrevemos abaixo:
Meu Irmão – Tendo sido outro dia suspendidos nossos augustos trabalhos pelos motivos que vos participei, e achando-se hoje concluídas as averiguações, vos faço saber que segunda-feira que vem os nossos trabalhos devem recobrar o seu antigo vigor, começando a abertura pela Grande Loja em Assembléia Geral. É o que por ora tenho a participar-vos para que, passando as ordens necessárias, assim o executeis. Queira o S.’.A.’.do U.’. dar-vos fortunas imensas, como vos deseja o vosso I.’.P.’.M.’.R.’.
(Irmão Pedro Maçom Rosacruz).

Deste modo, por ordem de Dom Pedro a atividade do GOB ficou suspensa apenas por sete dias. Se depois disso nunca mais se reuniu, não foi por causa do seu Grão-Mestre e sim devido à ausência de seu verdadeiro líder, o Irmão Gonçalves Ledo que, para não ser preso pelos esbirros de José Bonifácio, fugiu para Buenos Aires. Vendo-se desprestigiado com o apoio dado pelo Imperador a Ledo, José Bonifácio pediu demissão do cargo de ministro, no mesmo dia do bilhete de Dom Pedro a Gonçalves Ledo, autorizando o reinício dos trabalhos do GOB, a 25.10.1822. Acompanhou-o na demissão o irmão Martim Francisco. No dia 29.10.1822 apareceu uma PROCLAMAÇÃO elaborada pelos membros do APOSTOLADO, exigindo a volta dos Andradas.
O Imperador (sempre indeciso e volúvel), devidamente “trabalhado” pelo grupo de J. Bonifácio, interessado em seu retorno, conseguiu recolocar os Andradas no poder, de acordo com o Decreto de 30.10.1822. (Nabuco – Legislação Brasileira – Tomo III,pág. 347). O ciúme entre o Grande Oriente e o “Apostolado” entrou em sua fase mais crítica e delicada. Ambas as Sociedades procuravam monopolizar as simpatias de D. Pedro, sem que este resolvesse pronunciar-se por uma delas. Fervilhavam as intrigas políticas e insinuavam-se conspirações ora de uma, ora de outra parte, o que devia causar em D. Pedro grande sensação de mal-estar. Se era a independência do país que todos almejavam, e sobre isso ele não tinha dúvida, por que então se envolviam em lutas estéreis ao invés de o ajudarem a realizar a obra que tinham em mente ?
Diziam os do Apostolado: “Nós queremos a independência sob a forma de regime monárquico, enquanto que o Grande Oriente conspira para implantar a República”.
Esta insinuação, que era quase uma denúncia, iria ser o calvário do GOB. que, devido a essas intrigas, teve suspensos os seus trabalhos pelo seu próprio Grão-Mestre.Esta foi a primeira e a última vitória do “Apostolado” Isto porque, embora cerrados os trabalhos do GOB, muita coisa ainda seriacapaz de influir no ânimo de D. Pedro.Certo dia, chegou ao Palácio uma carta anônima, escrita em Alemão, trazendo a nota de urgente no envelope. D. Pedro pediu à Imperatriz que a traduzisse, o que mostrou uma grave denúncia! O Apostolado tramava contra a vida do seu Arconte Rei, opróprio Imperador.Nesse mesmo dia, D. Pedro mandou chamar o seu ministro José Bonifácio ao Palácio, por volta das 18:00 horas. Sem nada mencionar a J. Bonifácio, D. Pedro ordenou-lhe que o esperasse, pois estava de saída que não seria demorada. Coberto por espesso capote, montou um cavalo sem ferraduras e dirigiu-se ao quartel de artilharia montada de São Cristóvão de onde, juntamente com o seu Comandante Pardal, de oficiais de confiança e de cinqüenta soldados, todos encapotados e bem armados partiram para a rua da Guarda Velha, no centro na cidade do Rio de Janeiro. O Imperador bateu à porta, com a senha da ordem. O porteiro, embora conhecendo D. Pedro, vacilou em abrir-lhe a porta, sendo rapidamente seguro, o mesmo acontecendo ao segundo porteiro. Era costume, na chegada de um membro da Sociedade, como sinal de ordem, levantarem-se todos os presentes e puxarem do punhal. Ordenando que os que o acompanhavam permanecessem no vestíbulo, o Arconte Rei caminhou em direção ao trono, de onde Antonio Carlos Ribeiro de Andrada Machado presidia os trabalhos.
De imediato, este lhe ofereceu a cadeira, e se preparou para juntar e guardar os papéis referentes aos trabalhos da Sessão, que nada mais tratavam senão do plano de conjuração e das propostas dos membros da Sociedade a este respeito, no que foi impedido pelo próprio Imperador, que lhe tomou estes papéis.Em seguida, D. Pedro dirigiu-se aos presentes, dizendo: “Podem retirar-se, ficando cientes de que não haverá mais reuniões no “Apostolado” sem minha ordem. E não se realizaram mais reuniões, nem tampouco prisões. Assim acabou a “Nobre Ordem dos Cavaleiros de Santa-Cruz”, ou seja, o Apostolado. E, de novo, José Bonifácio foi demitido de seu cargo de Ministro. Esta era a represália do Grande Oriente, que conseguiu assim acabar com o “Apostolado”. Ressentido, pela Exaltação de D. Pedro e por sua destituição sumária do Grão-Mestrado, em favor de D. Pedro, tudo obra do Ledo, José Bonifácio, juntamente com seu irmão, Martim Francisco e mais alguns maçons, saiu do GOB e fundou uma nova sociedade secreta, meio maçônica e meio carbonária – O Apostolado. José Bonifácio, que viajara por todos os países onde a “Carbonária” lançara os seus tentáculos, deixara-se empolgar pelo sistema de organização da poderosa sociedade, mas simplificara-o de acordo com as possibilidades do momento. Suprimiu, por exemplo, o “Triunvirato”, que era nas organizações européias o centro nervoso de onde provinham as ordens mais importantes. As pequenas assembléias locais (Decúrias), embora se pretendesse corresponderem às “Lojas Maçônicas”, é melhorcompreendê-las na categoria de “Choças”, já que os seus altos dignitários não eram eleitos e sim designados de entre as “Colunas do Trono”, nome dado aos membros da original sociedade.
O primeiro passo de J. Bonifácio foi ordenar a prisão de todos os que considerava seus inimigos – Ledo e os seus partidários.(Portaria de 11.11.1822). A esse respeito, o Irmão Kant (Cônego Januário da Cunha Barbosa) escreveu a Ledo no dia 30.10.1822:
“Ledo – Escrevo, na contingência de ser preso pelos agentes dos Andradas. J. Bonifácio nos intrigou com o Imperador,convencendo-o de que somos republicanos e queremos a sua morte e expulsão. Sei, pelo Clemente, que a ordem de prisão já está lavrada. Esse homem que se tem revelado um tigre, QUE NÃO FEZ A INDEPENDÊNCIA, QUE A IMPEDIU ATÉ O ÚLTIMO
INSTANTE, e que somente a aceitou quando a viu feita, agora procura devorar aqueles que tudo fizeram pela Independência da Pátria, que a conseguiram com os maiores sacrifícios. O Drummond disse que o déspota faz questão de prender você para enforcá-lo.Lembre-se do que ele disse na Igreja de São Francisco. Não se exponha, não apareça na Corte, pois o grande ódio dele recai sobre você, que foi, como DIRIGENTE DA MAÇONARIA, o principal obreiro, o verdadeiro construtor de nossa Independência..Por que a proibição das sociedades secretas e qual o fim do apostolado?Ordenação, que estabelece Pena de Morte e Confisco dos Bens para a Coroa, ainda que haja filhos ou descendentes doscondenados. Talvez para proteger o patrimônio do GOL – Grande Oriente Lusitano – este Alvará não menciona expressamente a Maçonaria nem os Pedreiros Livres. O objetivo era atingir diretamente o movimento subversivo que no Brasil se utilizava da forma secreta porque trabalhavam as Lojas Maçônicas, para conspirar contra a Monarquia.Diz o Alvará textualmente: “Sou servido Declarar por Criminosas e Proibidas todas e quaisquer Sociedades Secretas, de qualquer denominação que elas sejam, ou com os nomes e formas já conhecidas, ou debaixo de qualquer nome ou forma que de novo se disponha ou imagine Isto significa que a Lei não Em Pernambuco, o movimento nativista ia crescendo, e já em 1816 existia uma Grande Loja Provincial, à qual eram filiadas as Lojas existentes e nas quais estavam sendo feitos os preparativos para uma Revolução Republicana que tinha como objetivo a proclamação da Confederação do Equador, uma república federativa. (História da República de Pernambuco de 1817 – Mons. Muniz Tavares).
Foi tão drástica a reação do Governo Português que a história chamou de monstro o Conde dos Arcos que, pela sua crueldade, debelou o movimento em 74 dias. Este movimento se transformou num banho de sangue, pois os que escaparam das lutas sangrentas, morreram fuzilados ou na forca. A primeira vítima foi o Padre Roma, fuzilado a 29.03.1817. Aliás, os padres nativos eram maçons de coração e lutavam pela liberdade de sua terra. Dezenas deles morreram na revolução e em outras escaramuças. Porém, em Portugal, os padres viviam delatando os maçons. Para solidificar a vitória, conseguida com o sacrifício de tantas vidas preciosas, e extinguir a Maçonaria de uma vez por todas, o rei D. João VI, convenientemente industriado pelo Conde dos Arcos e por outros inimigos dos filhos da viúva, resolve baixar o Alvará de 30.03.1818, publicado na íntegra no Boletim do GOB de 1898 proibindo todas e quaisquer sociedades secretas em Portugal e em todos os seus domínios (inclusive o Brasil) sob as mais severas penas, inclusive o de lesa-majestade, conforme queria saber o que havia antes, devendo ser punidos os que, de agora em diante, se reunissem em “Lojas, Clubes, Comitês, ou qualquer outro ajuntamento de Sociedade Secreta”. Entretanto, este mesmo Alvará levou, em Portugal, à condenação e fuzilamento, por conspiração contra a monarquia, do Marechal Gomes Freire de Andrade, Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, em 1818. O bravo executor deste assassinato foi o General Beresford, maçom inglês que comandava as tropas inglesas que vieram defender Portugal durante as invasões de Napoleão. Em casa de amigos ingleses no Algarve, em 1996, estive com o Avental e o Colar de Grão-Mestre do Marechal Gomes Freire nas mãos. Tenho inclusive o filme que fiz na ocasião mostrando estas alfaias, que têm quase duzentos anos, e que se encontram em muito bom estado de conservação. No Rio de Janeiro, acobertados pelo Clube Recreativo e Cultural da Velha Guarda, fundado por Gonçalves Ledo e mais 42 companheiros, continuava-se a conspirar pela independência do Brasil. Em 1821, descobertos, foram presos numerosos maçons “por serem perigosos alteradores da ordem” como se lia no Aviso expedido pelo Ministro Villa Nova Portugal. Mas muitos mais deixaram de ser presos. A informação do Intendente de Polícia, dada em 04.12.1821 ao Ministro, foi:
“Permita V. Excia. que diga ser impossível agir sem tropas fiéis, pois a que temos está na maioria filiada aos conspiradores, sendo conveniente mandar vir outra do Reino de Portugal, pois o movimento da independência é por demasia generalizado pela obra maldita dos maçons astuciosos, com a chefia de Gonçalves Ledo. José Bonifácio era do apostolado e era maçom, e foi iniciado perto da independência. Como todos sabem era ligado a D Pedro, logo deve ter participado da proibição dos trabalhos do GOB. A pergunta é: por que em 1831 foi, de novo, eleito Grão-Mestre do então adormecido GOB ? Como já dito acima, José Bonifácio nunca foi Iniciado. Entrou para a Maçonaria sem nunca passar pela cerimônia da Iniciação. Depois de sua fuga para Buenos Aires em 1822, Gonçalves Ledo retornou ao Brasil em 21.11.1823. Nesse meio tempo, tinham sido deportados os três Andradas e vários outros seus correligionários. A Loja Seis de Março de 1817, fundada em Recife em 1821, foi a única Loja no Brasil a permanecer ativa depois de 1822.Também ela adormeceu em setembro de 1824, ao ser abortada a revolução republicana fomentada pela Maçonaria pernambucana, para instalar a Confederação do Equador.
Esta revolução foi afogada em sangue. No Rio e em Pernambuco, foram 17 os enforcados. A principal vítima da Maçonaria foi o Irmão Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, fuzilado em 13.01.1825.Entre 1825 e 1929 foram escassas as atividades Maçônicas, devido à Lei sobre as Sociedades Secretas. Noticia-se apenas que em 1829 Gonçalves Ledo começou a reunir os maçons dispersos, em uma nova Loja Educação e Moral, cuja instalação foi feita pelo Irmão, então Ten. General, João Paulo do Santos Barreto, já no Rito Escocês. Finalmente, a Carta de Lei de 15.12.1830, com o novo Código Criminal, aliviou a pressão sobre as Sociedades Secretas: Ainda em 1829 é também fundada a Loja Amor da Ordem, que trabalhava no Rito Escocês. Finalmente, em princípio de 1830, é reerguida pelo Cônego Januário da Cunha Barbosa, o Irmão Kant, cujo bilhete de 30.10.1822 tinha salvo Gonçalves Ledo da forca, a Loja Comércio e Artes, que voltou a trabalhar no Rio Francês ou Moderno.Assim, Ledo preparou o terreno para futuramente reinstalar o GOB, antes de terminar o ano de 1830, com estas três Lojas: Educação e Moral, Amor da Ordem e Comércio e Artes. Entretanto, estas Lojas só mais tarde iriam se incorporar ao Grande Oriente, e não foram elas as que reconstituíram o GOB em 1830, e sim as Lojas Vigilância da Pátria, União e Sete de Abril. Estas lojas, que trabalhavam no rito Francês ou Moderno, não pertenciam ao grupo de Gonçalves Ledo. A reinstalação oficial do GOB só viria a ser feita em 24.06.1831, depois da saída de Pedro I - o Grão-Mestre nunca substituído -do Brasil. De direito, o novo Grão-Mestre só poderia ser o seu antigo Grão-Mestre Adjunto, o Irmão Turrene, Brigadeiro Luiz Pereira da Nóbrega Coutinho, nomeado em 17.08.1822. Na ausência deste, o Primeiro Malhete do GOB deveria pertencer a Gonçalves Ledo, seu Grande Primeiro Vigilante, que estava ainda muito vivo. J. Bonifácio havia deixado de ser Grão-Mestre desde 1822, quando entregara o malhete ao seu sucessor, D. Pedro; se os trabalhos recomeçavam depois de suspensos, segundo aparece na prancha convite, por que aparece o seu nome e não o do verdadeiro Grão-Mestre ou o daquele a quem a lei autorizava a substituí-lo em suas faltas?
O fato de ter sido escrito por Gonçalves Ledo e assinado por J. Bonifácio o Manifesto Maçônico de 05.12.1831, da reinstalação do GOB, significa apenas a trégua, passageira como veremos, feita entre os dois próceres, acertada que estava a incorporação ao GOB das Lojas lideradas pelo Ledo.
Aliás, grande foi o escândalo nos meios maçônicos onde “os cultivadores das virtudes, os patriotas honrados, os amigos da liberdade e da independência da Pátria, os genuínos Maçons brasileiros”, nunca se ligariam a um corpo maçônico a cuja frente se acatava o maior perseguidor da maçonaria brasileira”...Em princípios de 1833 a loja Educação e Moral, da qual era Venerável Joaquim Gonçalves Ledo, filiou-se ao Grande Oriente do Passeio, fundado em 1829, por não “suportar o jugo andradino por longos....4 meses”. Esta Loja tinha sido declarada irregular pelo GOB, por se ter recusado a elevar ao Grau 18 diversos obreiros do GOB, alegando, com firmeza, que não poderia concederaquele grau a Irmãos não iniciados no REAA.

Bibliografia
Achegas para a História da Maçonaria no Brasil – Maçonaria Heróica – Isa Ch’na
The English Craft in Brazil – James Martin Harvey
Nos Bastidores do Mistério – Adelino de Figueiredo Lima
A Maçonaria e a Grandeza do Brasil – A. Tenório D’Albuquerque

sexta-feira, 19 de março de 2010

Cultura é pra ser multiplicada! Saiu o Almanaque Engenho & Arte 2010!




André, maninho:
Dia 20 de março o Engenho & Arte - Almanaque 2010 estará impresso.
Vale a pena conhecer, não só pela aparência como pelo conteúdo de suas 144 páginas coloridas, com artigos importantíssimos, como você verá pelo sumário que se segue.
Muito do que está nesta edição é inédito no Brasil. Foram meses de trabalho duro, mas creio que está à altura dos Maçons da terceira maior Maçonaria do mundo, a nossa. Tenho certeza de que você vai gostar e gostaria de que me ajudasse a divulgá-lo entre os Irmãos.
Estou anexando a imagem da capa, para que tenha uma idéia.
O preço é R$ 45,00 + postagem.
O Almanaque E&A 2010 ser comprado pelo site www.artedaleitura.com.br a partir de 30 de março (inclusive com cartão de crédito) ou direto da Infinity, com a Marcia, pelo telefone (21) 2293-2791.
Um grande abraço,
João Guilherme
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Sumário do E&A Almanaque 2010

Alphonse Mucha, o Homem, o Artista, o Maçom, de William Carvalho, ex-Grande Secretário de Cultura do GOB, escritor internacionalmente respeitado, conta a história do grande artista e patriota tcheco que foi Soberano Grande Comendador e Grão-Mestre de Honra. – pág. 5

O Sétimo Brinde, de Igor Emílio Ferrer Acuña. No México, em um cenário de mais de 450 anos, 225 Irmãos se reúnem para um banquete maçônico. Vinho, pães, decoração, rigor ritualístico e entusiasmo contagiante! O discurso do Venerável mostra que, em todas as partes do mundo, a preocupação dos Maçons pelos problemas de seus países é universal. – pág. 20

A saga da Loja Paraíso (I), de José Castellani, o lado irreverente, gozador e pouco conhecido do grande historiador, totalmente em cores. Se a Maçonaria começou no Paraíso, então aqui está a Loja nº 0, completa em seus quatro artigos. O primeiro mostra como surgiu a ideia. – pág. 23

Arte Gráfica é Vocação, de João Guilherme: justo tributo aos Meneghetti, uma família de gráficos Maçons, com tinta nas veias, arte no coração e sorriso nos lábios, que tornou possível realizar O Livro dos Dias e o Engenho & Arte por quase 15 anos. – pág. 30

Os Ritos Maçônicos, de Manuel Castillejos, autor mexicano, apresenta a melhor resenha da origem dos Ritos praticados por nós, com um gráfico explicativo, inédito no Brasil, em que todos eles aparecem, mostrando sua origem e desfazendo invencionices. – pág. 37

O Catolicismo Romano, de Joaquim da Silva Pires, respeitadíssimo historiador paulista, uma retrospectiva da evolução das ideias, um raios-X lúcido e desapaixonado do sistema e das práticas, muitas condenáveis, que consolidaram o poder da Igreja. – pág. 47

Futebol & Maçonaria, um Fascinante Jogo Amistoso, de José Alves Rodrigues Filho: se você acha que um nada tem a ver com o outro, precisa conhecer as analogias deste Past Master alucinado por Maçonaria, futebol e cerveja (a ordem depende do momento...) – pág. 57

A Missão da Maçonaria, brilhante transcrição da histórica conferência de Nicola Aslan no GOB, uma aula de História e de bom senso, com apresentação de seu próprio filho, Ítalo Aslan, GM Adjunto do GOIRJ, escritor e intelectual como o pai. – pág. 69

O Nome Diz Tudo, de Heliton Gomes Teixeira, Past Grão-Mestre: a saga da Loja Nova Esperança, de seu modesto começo em 1969 ao Palácio Maçônico de hoje, em Itaperuna, RJ. – pág. 79

A Harmonia vem da Origem, de Antonio Carlos Raphael, Grão-Mestre: um registro do crescimento do Grande Oriente Independente do Rio de Janeiro em seus 36 anos de vida. – pág. 81

A saga da Loja Paraíso (II), de José Castellani, o segundo artigo da saga: a fundação da Loja Paraíso Nº 0. – pág. 82

A Iniciação do Guerreiro, de Paulo Guilherme Hostin Sämy, pesquisador e pensador de primeira linha: o tempo passa, mas os ritos de passagem continuam vivos, em todo o mundo. – pág. 87

Os Templários no Brasil, de Christian Farias Santos, outro jovem e promissor autor, narra a vinda ao Brasil das Ordens de Cavalaria americana – Cruz Vermelha, Malta e Templários – as versões maçônicas originais que completam o legítimo Rito de York. – pág. 97

Paris, 1929, artigo divisor de águas de Joaquim da Silva Pires, mostras as razões históricas que decidiram sobre a regularidade do Supremo Conselho do REAA no Brasil. – pág. 101

A saga da Loja Paraíso (III), de José Castellani, o terceiro artigo da saga: a primeira Iniciação na Loja Paraíso Nº 0. – 106

A Trolha – Xico, a Revista & a Editora, por Evelise Bianco de Carvalho, narra a vida e a luta de seu pai, um dos maiores grandes benfeitores da Maçonaria brasileira, Francisco de Assis Carvalho, o Xico Trolha, editor, autor, defensor e exemplo de várias gerações. – pág. 111

Voltaire, de José Maurício Guimarães, VM da Loja de Pesquisas Quatuor Coronati "Pedro Campos de Miranda", da GL de Minas Gerais, um artigo excepcional e bem humorado sobre o filósofo que foi iniciado aos 84 anos, apesar de ter sido Maçom a vida inteira. – pág. 118

Societas Rosicruciana, de Alexandre Nascimento, um jovem autor e um dos principais responsáveis por sua chegada ao Brasil, resume a história da Sociedade Rosicruciana, dedicada ao estudo da tradição alquímica na Maçonaria, e fala de sua estrutura. – pág. 126

A saga da Loja Paraíso (IV), de José Castellani, o quarto e último artigo da saga: a primeira Sessão de Finanças na Loja Paraíso Nº 0. – pág. 131

Loja Neanderthal, instantâneos de uma Loja na Idade da Pedra! – pág. 135

A pré-História do Rito de York no Brasil, de João Guilherme. Hoje o Real Arco é sucesso inegável, mas teve uma estrada acidentada. Aqui está uma visão muito pessoal de como o outro lado da famosa escada da Maçonaria americana chegou ao Brasil. – pág. 136

NÚMEROS E IMPRESSÕES DA MAÇONARIA MUNDIAL E REGIONAL

pelo Irmão Marcos Hans (MRA/SEM/SKT)
Loja Tradição Justiça e Liberdade 179 GLMERGS Porto Alegre RS
North Eureka Shore #269, Grand Lodge of Florida, US.


Com muita facilidade, pesquisando na internet, se chega à conclusão da existência de seis milhões de filiados à Maçonaria dita Regular. Sendo quatro milhões nos Estados Unidos e o restante pelo mundo.

Também com certa facilidade, na internet e outras fontes se chega à conclusão que o numero atual é menor. Bem menor. Neste texto você vai conhecer alguns números da maçonaria mundial, do Brasil e do Estado do Rio Grande do Sul, baseado em fontes citadas no final deste texto, assim como planilhas para melhor visualização dos mesmos e também números sobre os graus superiores (REAA e Real Arco) nos USA, Inglaterra e Brasil e algumas impressões de visitas, entrevistas e participação em sessões maçônicas.

Em primeiro lugar, o número total de membros atinge o total de 3,6 milhões de membros, sendo 1,5M nos USA, 250 mil na Inglaterra, 170 mil no Brasil e o restante do mundo. Nos Estados Unidos da America o total é de 1,5 milhão, número que este que já chegou a 4 milhões em 1965. Destaca- se a Grande Loja da Philadelphia com aproximadamente 130 mil filiados.. No berço da Maçonaria, a United Grand Lodge of England (UGLE), o numero atual é de 250 mil. O restante se localiza em diversos países, entre os quais o Brasil com 176 mil filiados entre as três potências regulares. Vide gráfico número 1. Nos Estados Unidos existem 51 Grandes Lojas que abrangem estes 1,5 milhão. Numero Idêntico de Grandes Lojas da Prince Hall, (PHA) para Afros Americanos. O número de maçons Afro americanos é de aproximadamente 150.000 em todo pais. Existe lá também um divisão na Prince Hall.

Em segundo lugar, nos altos graus nos Estados Unidos, o número no Rito Escocês que abrange dos graus 4 ao 32 é de 585.000. No Real Arco o número atinge 285.000. Na maioria são os mesmos irmãos. Isto dá em média um percentual de 39 % que freqüentam os altos graus. Na Inglaterra o percentual é de 20% sendo o maior numero, 90%, no Real Arco e 20% no Rito Escocês, mas também, na maioria são os mesmos irmãos.No Brasil,os dados são de mais difícil obtenção. No Supremo Conselho do Grau 33, de Jacarepaguá o numero é 32000, sendo 600 no RS. O Supremo Conselho do RS, o número é 2443 em marco de 2007. O Real Arco, novo no Brasil, carta constitutiva de 2001, o número chega a 2000. Este Supremo aceita MM das três potencias regulares e de todos os ritos. A sede é no Rio de Janeiro e tem capítulos em Porto Alegre.Precisa-se tomar nota da diferença entre o Real Arco Americano e o Arco Real Inglês. O primeiro é independente, como o Rito Escocês e na Inglaterra é uma continuação do Simbolismo. O Arco Real foi um dos motivos da desavença inicial antes da união em 1813, entre as duas Grandes Lojas rivais na época.

Em terceiro lugar, no Brasil o número de obreiros é de aproximadamente 172.630 sendo 82400 da CMSB,(Confederacao da Maconaria Simbolica do Brasil), 58400 do GOB(Grande Oriente do Brasil) e 31380 da Comab. (Confederacao Maconica do Brasil).Note-se que na Comab o Rio Grande do Sul (Gorgs)-Grande Oriente do Rio Grande do Sul, representa 25%.

E em quarto lugar, no Rio Grande do Sul, o total de obreiros chega ao número de 14.510 sendo 7800 do Gorgs, 5609 da Grande Loja e 1101 do GOB. Vide média de obreiros por loja nas planilhas. Não está considerado nestes números, a maçonaria feminina, mista e outras potências não reconhecidas, cujos números não são expressivos.

Faz-se necessário mencionar aqui a particularidade da Maçonaria Brasileira, hoje dividida em três potencias, já mencionadas, que se reconhecem entre si, por tratados de amizade em quase todo pais. A variedade de ritos praticadas abrange- REAA Rito Escoces Antigo e Aceito, Rito Adohniramita,Rito Brasileiro, Rito Schroeder,Rito York, Rito Moderno ou Frances.

Na maçonaria Americana percebe-se muita informalidade nas reuniões e muita seriedade nas questões financeiras. Especificamente a loja que visito, Eureka North Shore 269 –Dania Beach –Flórida, tem 220 membros. Em sessões normais, duas por meses, a presença gira em torno de 15 membros. As falas no ritual são decoradas. Cada obreiro, aprendiz, companheiro e mestre deve fazer o tema de casa, ou seja, saber decorado o catecismo do grau e as falas do ritual em loja, caso seja oficial. Nos altos graus, tanto do Rito Escocês ou Real Arco, a obtenção de graus acontece em reuniões de um, dois ou três dias, onde os dramas dos graus são apresentados. O Rito Escocês, Scottish Rite, tem aproximadamente 300 centros nos USA, com grandes auditórios para a apresentação dos graus. Conheci o Miami Scottish Rite, Valley of Miami. O Real Arco tem aproximadamente 5600, entre capítulos, conselhos crípticos e Acampamentos Templários. O Rito Escocês é dividido entre duas jurisdições. Os Supremos Conselhos do Norte (15 estados) e o Sul (35 Estados) que é considerado o Supremo Mãe, fundado em 1801 na Carolina do Sul, no qual o General Albert Pike teve um papel fundamental em sua organização administrativa e ritualística, a qual se reflete em quase todos os supremos do mundo. Importante fazer constar que no Grau 32 é ensinado ao candidato EQUILIBRIO na jurisdição sul e FIDELIDADE na jurisdição norte.

A filantropia tão falada que os Maçons americanos praticam é verdadeira. Como? Existe um fundo com mais de 100 anos de idade cujos rendimentos pagam as contas dos hospitais mantidos pelos Shriners , hoje aberto a todos os mestres maçons, com o objetivo de diversão e filantropia. Recebe muitas doações, de testamentos. Isto significa que o fundo continua aumentado.

Na Inglaterra os altos graus que são inúmeros. Para se ter uma idéia melhor, o Livro Além da Maçonaria Simbólica de Keith B.Jackson (Madras) é esclarecedor. Entretanto, os mais praticados são o Rito Escocês e Real Arco. Vide planilha.O sistema é idêntico ao do Brasil, ou seja Grau por Grau, sendo alguns por comunicação e os principais dramatizados. Tanto nos USA como na Inglaterra, chegar ao grau 33 é outro capítulo. Serviços relevantes, dedicação, presença. Na Inglaterra, para se chegar ao Grau 33, somente no caso do Dead man shoe, (sapato do homem morto), ou seja, quando alguém do conselho for visitar definitivamente o Grande Arquiteto do Universo. A formalidade nas reuniões é diferença básica comparando-se com os Estados Unidos. Na sessão que participei (Loja Neptune n# 22 fundada em 1757), percebi este formalismo. Todos com terno. As autoridades com fraque. Na sessão que participei foi o aniversário desta loja com iniciação do filho do V. M.:, no rito Stability e com a presença do segundo em Comando da Ugle, ou seja o The Most Worshipful Pro.Grand Master M.W. Bro. The Marquees of Northampton. Esta autoridade, foi anunciado e entrou no templo principal no Freemason Hall acompanhado pelo seu próprio mestre de cerimônia.
statsbrasil

Sobre o Templo principal no Freemason Hall, é interessante registrar que ele é usado somente para cerimônias especiais e é também locado para empresas, seminários, filmagens com o objetivo de fazer caixa. É a realidade também em templos americanos. Reflexo da queda de membros, conforme gráficos.

Também é interessante registrar que a maioria das lojas, na Inglaterra se reúne quatro vezes, ao ano. Sim, ao ano e não ao mês como acontece no Brasil. Exceções de lojas que se reúnem 10 vezes ao ano. A Quatuor Coronati Lodge n# 2076, loja de pesquisa fundada em 1884, conta atualmente com 6500 membros correspondentes, sendo 3000 na Inglaterra, 700 nos USA, mais ou menos 60 no Brasil e os restantes espalhados pelo mundo. Os membros efetivos são 40.

Resumindo e finalizando. Para um entendimento da grandeza da maioria, tanto em números como em filosofia e doutrina, é necessário conhecer um pouco de onde e como ela surgiu, independentemente de qual teoria, da transição dos operativos para os não operativos, da simples formação de uma fraternidade para promoção da tolerância e da religião ou outra e da Maçonaria Americana que é maior em número, em filantropia, em organização, para com isto compreender melhor o acontece ao nosso redor, aqui em casa e eventualmente poder tomar ou sugerir alguma ação para a sobrevivência, fortalecimento da nossa querida Ordem.

O que me fascina na Maçonaria e a diferencia de outras organizações, fraternidades, clubes, é a Ritualística, com a linguagem congelada do século XVI, e a mística que envolve sua existência. Mark Tabbert, em seu livro American Freemason: Three Centuries of Building Communities, capturou as muitas dimensões de uma reunião maçônica:

Uma loja maçônica pode ser:

*

Uma organização espiritual quando se invoca orações e pede a benção de seu Deus para seus trabalhos.
*

Uma organização de trabalho quando ensina a um novo membro o simbolismo das ferramentas usadas pelos maçons do passado.
*

Uma escola de instrução quando um irmão apresenta trabalhos sobre as sete artes, sobre as instruções dos manuais e livros estudados.
*

Uma organização de teatro amador quando apresenta as iniciações.
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Um clube social quando homens se reúnem para jantar e conversar.
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Um clube de caridade quando ajuda a irmãos, a comunidade.
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Uma associação de negócios quando membros interagem com seus negócios.
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Torna-se uma família quando pais e filhos, estranhos e amigos se reúnem e todos se chamam de irmãos.

E ainda um trecho do livro de Albert Pike, (Morals and Dogma) escrito em 1865.

A maçonaria é útil para quase todos.

*

Para os iniciantes, precisando e procurando cultura, importantes instruções.
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Para os Jovens, conceitos salutares e bons exemplos.
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Para o homem adulto e maduro, oferece nobres recreações e instruções.
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Para o viajante, proporciona fazer amigos em qualquer parte do mundo.
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Para os infortunados que merecem assistência.
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Para o caridoso, oportunidade para fazer o bem.
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E para todas as almas capazes de apreciar sua importância e usufruir o charme do relacionamento baseado nos mesmos princípios de uma religião, a moralidade, respeito, filantropia.



Fontes

1-Transactions of Quator Coronati lodge 2076 (London)n#118 de 2005 paginas 53 e 118

2-List of lodges de 2005

3.www.bessel.org/Masonic.info.htm

4. www.msana.com

5. Ir.Silvio Bustamante do Gorgs. Secretaria do GOB e GLMRGS

6. Entrevistas com Irmãos da Loja Neptune 22 da Ugle e da #269 Eureka North Shore de Dania Beach, Florida, Loja Sun Meridien n# 2 Philadelphia, Pensilvânia. USA.

7. The complete Idiot’s Guide to Freemasonry. Autor – S.Brent Morris, PhD, 33. Pg.13 e outras.

8.Is it True What they say about freemasonry.Artur Hoyos.

9.Morals and Dogma de Albert Pike.

10.Heredon – Transactions da SRRS de Washington DC

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A Iniciação do Guerreiro

Paulo Guilherme Hostin Sämy

1. As iniciações

A literatura iniciática raramente se ocupa do guerreiro e de seu processo iniciático, enfatizando antes o estudo das iniciações chamânicas, considerando que o estágio ulterior e evolutivo conquistado pelos chamãs de todo o tipo, - feiticeiros curadores do corpo e da alma -, poderá colaborar mais intensamente à evolução individual de cada estudioso – outrora dito iniciado – envolvido em seu projeto iniciático.

Portanto, passa-se à margem do conhecimento a respeito desta iniciação, a do guerreiro, suplantada, em beleza aparente, pelas demais, cuja simbologia e cujo discurso, embora análogos, encantam vista e ouvido quando expressas em linguagem artística, quer verbal quer visual, todas estruturadas, contudo, sobre símbolos do inconsciente humano recolhidos ao longo de sua história, como adequadamente anotou Karl Gustav Jung, o psicanalista suíço em sua obra.

Mircéa Eliade (1907-1986) internacionalmente conhecido pelo estudo das iniciações e como ‘inventariante de mitos’, com conhecimentos adquiridos inicialmente na Índia, onde viveu de 1928 a 48, e posteriormente junto a tribos indígenas diversas, soube emoldurar a iniciação dos guerreiros, destacando-lhe seu universo iniciático, como na monografia ‘Nascimentos Místicos’ – ‘Naissances Mystiques’. À contracapa desta edição de ‘Éditions Gallimard’ de 1959, assim a resume o apresentador da obra: ‘É uma afirmação corrente que o mundo moderno, entre outras características, se distingue (do mundo antigo) pelo desaparecimento da iniciação. De uma importância capital nas sociedades tradicionais, a iniciação é praticamente ausente da sociedade ocidental de nossos dias.’ E mais adiante: ‘Com vistas a separar os diversos tipos de iniciação, o Autor (Eliade) estuda sucessivamente os ritos de puberdade dos primitivos, as cerimônias de entrada nas sociedades secretas, as iniciações militares e chamânicas, os mistérios greco-orientais, a sobrevivência de motivos iniciáticos na Europa cristã e, enfim, as relações entre certos motivos iniciáticos e certos temas literários.’

Sobre a iniciação, eis como se expressa Eliade: ‘Compreende-se geralmente por iniciação um conjunto de ritos e de ensinamentos orais, que persegue a modificação radical do estatuto religioso e social do sujeito a iniciar. Filosoficamente falando, a iniciação equivale a uma mutação ontológica do regime existencial. Ao fim de suas provas, o neófito goza de outra existência que a anterior à iniciação: tornou-se um outro.’ E mais adiante: ‘A iniciação introduz o neófito na comunidade humana e no mundo dos valores espirituais. Aprende comportamentos, técnicas e instituições dos adultos, como também mitos e tradições sagradas da tribo, nomes dos deuses e a história de suas obras: aprende, sobretudo as relações místicas entre a tribo e os Seres sobrenaturais assim como foram estabelecidas na origem dos tempos’. (págs. 10 e 11 da obra citada.)

E prossegue, na tentativa de expressar sua percepção sobre o tema: ‘É, pois aos conhecimentos tradicionais (da tribo) que têm acesso os neófitos. São longamente instruídos por seus tutores; assistem a cerimônias secretas, sofrem uma série de provas, e são, sobretudo estas que constituem a experiência da iniciação: o reencontro com o sagrado.’

Eliade assim começa sua Introdução na obra citada: ‘Tem-se afirmado muitas vezes que uma das características do mundo moderno é o desaparecimento da iniciação. De uma importância capital nas sociedades tradicionais, a iniciação é praticamente inexistente na sociedade ocidental de nossos dias.’ E mais adiante: ‘A originalidade do ‘homem moderno’, sua novidade em relação às sociedades tradicionais, é precisamente sua vontade de se considerar um ser unicamente histórico, seu desejo de viver num Cosmos radicalmente dessacralisado.’

Contudo à pág.253 deste livro diz: ‘Traços de antigos cenários iniciáticos são ainda reconhecíveis (atualmente) nos ritos específicos dos maçons e dos ferreiros, particularmente na Europa oriental.’ Reflexão interessante quando se considera que não nos brindou com estudos sobre a maçonaria, embora a mencione à pág. 270 desta mesma obra: ‘O único movimento secreto que apresenta uma certa coerência ideológica, que já possui uma história e que goza de um prestígio social e política é a franco-maçonaria. O resto das organizações com pretensões iniciáticas são, na maioria, improvisações recentes e híbridas’.

Já à pág. 266, no capítulo ‘Algumas Observações Finais’, diz Eliade: ‘Mas é preciso igualmente ter em conta o caráter meta-cultural da iniciação: encontram-se os mesmos motivos iniciáticos nos sonhos e na vida imaginária tanto do homem moderno quanto do primitivo. Para repetir, trata-se de uma experiência existencial constitutiva da condição humana. Eis porque é sempre possível reanimar esquemas arcaicos de iniciação nas sociedades altamente evoluídas.’

Esta última Observação, não só ratifica a pesquisa de Jung a respeito dos ‘símbolos transcendentes’ produzidos pela mente humana, quanto ainda deixa-nos pistas da iniciação do guerreiro através dos tempos, objetivo destes Apontamentos, sempre e, sobretudo um tributo a este grande Mestre e iniciador contemporâneo, objetivo último de sua obra.

2. A iniciação do guerreiro, segundo Éliade, em ‘Nascimentos Místicos’.

Em ‘Nascimentos Místicos’, Eliade, além de três capítulos onde estuda ‘ritos da puberdade’, acrescenta outro sobre ‘iniciações individuais e sociedades’ e, por fim, um quinto capítulo sobre ‘iniciações militares e iniciações chamânicas’, págs. 174 a 217.

‘Tornar-se berserkr’ou um guerreiro com uma capa ou ‘envelope’ – pele - (serkr) de urso, forte como um urso ou um lobo, era um objetivo de ‘sociedades de homens’ de antigas civilizações indo-européias, como a germânica. Fácil entender que o urso, por sua capacidade de sobrevivência no frio, através da hibernação, era um animal totêmico e referencial, sendo sua pele, em virtude das características de resistir ao frio, hoje conhecidas, um ‘envelope’ mágico a ser assimilado. Ademais, conhecedores e observadores do urso, ali identificavam um excelente caçador, quer em terra firme quer junto aos rios recolhendo peixes, qualidade, a da caça, essencial à sobrevivência nos longos invernos nevados.

Ensina Éliade: ‘Torna-se berserkr após uma iniciação, com provas especificamente guerreiras. Assim por exemplo, junto a tribos germânicas como os ‘Chatti’, nos diz Tácito (autor latino em ‘Germânia’) o postulante não cortava nem cabelos nem barba antes de haver matado um inimigo. Entre os ‘Taifali’, o candidato deveria abater um javali ou um urso, e entre os ‘Heruli’ deveria combater sem armas. Através destas provas, o postulante se apropriava d modo de ser de uma fera: tornava-se um guerreiro respeitável na medida em que se comportasse como uma fera predadora.’

Narra em seguida outro conto iniciático em que o postulante – um tal Sigmund – após provas de coragem e resistência a sofrimentos físicos, experimenta a transformação mágica em lobo, cuja metamorfose, ocorrida após o revestimento ritual de sua pele, constituía num momento essencial da iniciação nestas sociedades masculinas ou de homens, Männerbund.

Um filme americano de anos recentes – ‘Um homem chamado Cavalo’ – narra um interessante processo de transformação de um cidadão comum em guerreiro, em virtude dos muitos sofrimentos que enfrenta nas mãos de determinada tribo.

‘A prova guerreira por excelência, segundo nosso autor, era o combate individual, conduzido de tal maneira que culminava por liberar no neófito o ‘furor dos berserkir’. Não era questão de uma proeza puramente militar. Não se tornava berserkr unicamente por bravura, por força física ou por resistência, mas em seguida a uma experiência mágico-religiosa que modificava radicalmente o modo de ser de um jovem guerreiro’, e ‘que deveria transmutar sua humanidade por um acesso de fúria agressiva e aterradora, assimilada aos (animais) carniceiros enraivecidos’.

Ao longo da história medieval, podemos recolher as muitas imagens de animais selvagens incorporados à heráldica dos guerreiros, patronos ‘espirituais’ às suas atividades de combate.

A este furor do guerreiro está associada a liberação de um ‘calor’ interior, através da ingestão de variados alimentos capazes de provocá-lo, como o próprio fumo e plantas picantes, atividades que os chamãs também desenvolvem para aumentar o ‘calor’ interior, ‘um excesso de potência e, como acontece nos níveis arcaicos da cultura, toda potência é acompanhada de um prestígio mágico-religioso’. Por fim, ainda menciona as experiências chamânicas de ‘comer carvões brilhantes’, ou ‘tocar o ferro em brasa’, ou ‘marchar sobre o fogo’, experiências recolhidas por atores circenses ou mesmo de rua, e que expressam este domínio e incorporação do ‘calor’, de um certo calor mágico e iniciático, próprio dos guerreiros e cujo alcance os auxilia em sua transformação anterior, revelando-a por fim, ter ocorrido.

Experiências igualmente apresentadas por ‘filhos de santo’ nas religiões afro-brasileiras como as do candomblé ou da umbanda, em que o ‘médio’, sob a influência de determinadas entidades associadas a forças guerreiras, como a de Ogun e toda sua linhagem, entre em contato com o fogo e com o carvão em brasa, como manifestações daquela entidade em ação ou incorporada, com a qual justamente alega manter ou ter mantido contato espiritual, sem que apresente, ao cabo, fim da manifestação, lesões físicas expressivas em seu corpo, o que funciona como prova da qualidade da entidade manifestada.

3. Dominadores do fogo: alquimistas, ferreiros e guerreiros.

Em seu outro clássico ‘Ferreiros e Alquimistas’ – (‘Forgerons et Alchimistes’ – Ed. Flammarion, 1977)) - Éliade nos relembra a função mítica de heróis civilizadores que trouxeram o fogo ao homem para que pudesse ampliar seu poder sobre a matéria, e colocá-la sobre seu domínio e seu uso.

Com efeito, uma visita reflexiva ao interior da Terra, ao estado caótico e líquido em que se encontra ali a matéria, em elevada temperatura, - informação que os antigos não possuíam, embora conhecessem os vulcões – nos mostra que de seu gradual resfriamento surgiram os diversos metais. Portanto o fogo é o elemento dissolvedor capaz de, ao liquefazê-los, possibilitar não só novas combinações – sempre o alvo da alquimia – como ainda a sua moldagem, como tem sido a arte da metalurgia desde tempos primitivos.

Se a alquimia clássica ainda não estabelecera um elo mais intenso com o então primitivo complexo industrial-militar, mal grado a incorporação do uso da pólvora para o lançamento de projéteis dos canhões em torno do século XIV, a metalurgia, moldando armamentos e armaduras de todos os tipos, integra este referido complexo desde tempos imemoriais, havendo toda uma zona comum iniciática entre guerreiros e ferreiros na elaboração e construção dos arsenais ao longo da história.

Alquimistas e ferreiros são usuários do fogo de primeira hora, herdeiros dos heróis civilizadores que presentearam o homem, em vários cantos do planeta Terra, com este outrora quarto elemento sagrado, princípio só explicável pela química no século XVIII.

Mas os guerreiros, ao longo de sua história, foram gradualmente incorporando o fogo como arma de guerra, elaborando alternativas de lançá-los sobre seus inimigos e suas cidades, culminando ou com as grandes bombas atômicas como as lançadas sobre o Japão na 2ª Guerra Mundial, ou com os pequenos lança-chamas muito usados então, e por fim com as bombas incendiárias de ‘napalm’, usadas na guerra do Vietnã pelos norte-americanos.

Neste livro, Éliade, em capítulos como: ‘Meteoritos e metalurgia’, ‘Mitologia da Idade do Ferro’, ‘Terra Mater. Petra Genitrix.’, ‘Ritos e mistérios metalúrgicos’, ‘Simbolismos e rituais metalúrgicos babilônicos’, ‘Mestres do fogo’, ‘Ferreiros divinos e heróis civilizadores’ e ‘Ferreiros, guerreiros, mestres de iniciação’, busca recolher uma trilha para a história humana que encaixe vários elementos ígneos, a partir de raios, trovões e meteoritos caídos sobre a superfície da Terra a povoar a imaginação dos povos primitivos com divindades poderosas e dominadoras do fogo e respectivos herdeiros que, ‘naquele tempo’ mágico, introduziram o fogo como elemento civilizacional. Trilha que prossegue na História, com muitos seguidores nesta senda iniciática, construindo múltiplos artefatos a serviço do homem, na paz e na guerra, de crescente e redobrada importância nos dias atuais, justificando o estudo do contexto iniciático dos guerreiros e de seus parceiros fundamentais, os ferreiros.

No último capítulo supracitado diz, à pág. 82: ‘Numa versão egípcia, Ptah (O deus-oleiro) forja as armas que permitem a Horus vencer Set. Igualmente o ferreiro divino Tvashtri forja as armas de Indra quando de seu combate com o Dragão Vrtra; Hefaísto forja o raio graças a qual Zeus triunfará de Tifão; Tor mata a serpente com seu martelo, forjado pelos anões.’ E continua: ‘Mas a cooperação entre o Ferreiro divino e os Deuses não se limita a seu concurso no combate pela soberania do mundo. O ferreiro é igualmente o arquiteto e o artesão dos deuses. Kôshar constrói os arcos dos Deuses, dirige a construção do palácio de Baal, e equipa os santuários de outras divindades.’

No Alcorão, a importância do elemento ‘ferro’ é descrita no 25° versículo, da 57ª Surata, intitulada ‘Al Hadid’, conforme tradução disponível na Internet do Centro Cultural Beneficente Islâmico de Nova Iguaçu: ‘Enviamos os Nossos mensageiros com as evidências: e enviamos, com eles, o Livro e a balança, para que os humanos observem a justiça; e criamos o ferro(1601), que encerra grande poder (para a guerra), além de outros benefícios para os humanos, para que Deus Se certifique de quem O secunda intimamente, a Ele e aos Seus mensageiros; Sabei que Deus é Poderoso, Fortíssimo.’

Éliade identifica relações entre a habilidade do ferreiro e outras atividades intelectuais como a música, a cura, e os tiradores ou leitores da ‘sorte’, das tribos ciganas.

À pág. 89 ensina: ‘As sociedades de homens guerreiros, na Europa, na Ásia Central e no Japão, desenvolviam ritos iniciáticos onde o ferreiro e o ferrador de cavalos tinham seu lugar. Sabe-se que após a cristianização da Europa nórdica, Odim e a ‘caça furiosa’ foram assimiladas ao Diabo e às hordas de ‘danados’. Deu-se grande passo para a assimilação do ferreiro e do ferrador ao último. O domínio do fogo, comum ao mundo mágico, como ao do chamã e ao do ferreiro, foi considerado no folclore cristão como obra diabólica: uma das imagens populares mais freqüentes apresenta o Diabo cuspindo fogo em chamas. Talvez tenhamos aqui a última transformação mitológica da imagem arquetipal do ‘Mestre do Fogo.’

E à pág. 90, que nos serve como conclusão deste capítulo: ‘É esta intimidade, a simpatia com o Fogo que tornam convergentes experiências mágico-religiosas tão diferentes e solidarizam vocações tão díspares entre si como as do chamã, do ferreiro, do guerreiro e do místico.’

No Brasil, como mencionamos acima, os ritos do candomblé e da umbanda oferecem este espetáculo do relacionamento de seus adeptos com as divindades protetoras do ferro e do fogo.

4. De Tubal-Cain a Adoniran ou Hirã Abif: linhagem mítica

Em seu livro ‘Viagem ao Oriente’, publicado em edição definitiva em 1851, o autor Gerard de Nerval (1808-1855), intelectual francês e igualmente tradutor da primeira versão francesa do ‘Fausto’ de Goethe – portanto conhecedor deste plano cultural alquímico – narra, num curioso conto intitulado ‘Uma Lenda num Café’, a história que diz ter ali ouvido a respeito da visita da Rainha de Sabá a Salomão, envolvendo a participação de Hirã Abif, mito e herói da Bíblia e da maçonaria, durante os festejos havidos para comemorar tal visita.

Pois nesta visita, Salomão exibiria à Rainha, uma ‘corrida’ de estanho fundido – a rigor teria sido bronze – no momento em que saía da fornalha para preencher os diversos moldes dos objetos e estátuas em produção pelo admirável mestre Adoniran e sua equipe de obreiros maçons. Traído e sabotado por três companheiros, que haviam misturado pedras combustíveis às pedras de sua fornalha, que se rompeu – insucesso de Adoniran neste dia, fruto da sabotagem – provocando uma corrida desordenada daquele ‘mar’ líquido de bronze, ou estanho, culminando com sério acidente que lhe desgostou profundamente. Acabrunhado e desolado Adoniran, sentado ao lado do local do acidente, recebe a visita de um espírito que diz ser o antepassado primeiro de sua linhagem de ferreiros – Tubal-Cain – que vai guiá-lo numa viagem ao centro da Terra, ao Mundo Subterrâneo, para iniciá-lo no conhecimento da saga de seus descendentes e antepassados de Adoniran-Hirã. Ao cabo desta visita, Adoniran-Hirã recebe um martelo de Tubal-Cain, para desmontar a estrutura destruída pela ‘corrida’ frustrada do metal líquido. Um conto longo, mas que merece ser lido pelos estudiosos de Hirã, arquiteto mas igualmente ferreiro, descendente mítico portanto, segundo esta tradição recolhida à cultura árabe, de uma linhagem de ferreiros que alcança Caim.

5. A arte da guerra dos chineses: de 500 a.C. a Mao Tsé-Tung

Guerras e guerreiros cobrem toda a história dos homens. Na China, 500 anos A.C., um pensador e estrategista militar, Sun Tzu, anotou seus pensamentos sobre a atividade da guerra e a dos guerreiros num sucinto livro, um clássico sobre a matéria, redescoberto no Ocidente por um missionário jesuíta em Pequim, Padre Amiot, que o publicou em 1772 em Paris, mas que só ganhou a posição de ‘best-seller’ neste último século.

A edição através da qual tomei contato com a obra, foi a da Flammarion, 1972, traduzindo, por seu turno, os comentários do General Samuel B. Griffith, cujos conhecimentos de cultura chinesa e de estratégia militar possibilitaram-no elaborar monografia introdutória à mesma. Diz que a ‘tentativa de Sun Tzu é a primeira conhecida com vistas a estabelecer um fundamento racional para a planificação e a conduta de operações militares.’ ‘Acreditava que a estratégia hábil deve ser capaz de submeter o exército inimigo sem engajamento militar, de tomar cidades sem sitiá-las e de derrubar um Estado sem ensangüentar as espadas’. Segundo este autor, a ‘Arte da Guerra’ de Sun Tzu exerceu uma profunda influência ao longo da história da China, bem como sobre o pensamento militar japonês, tendo ainda sido fonte de teorias estratégicas desenvolvidas por Mao Tsé-Tung.

O comentarista General Griffith funda sua monografia em seis capítulos: o Autor; o texto; os Reinos Combatentes (daquela época); a guerra ao tempo de Sun Tzu; a guerra em sua ótica e Sun Tzu e Mao Tsé-Tung. Busca sintetizar o texto: ‘As doutrinas estratégicas e táticas expostas na ‘Arte da Guerra’ são baseadas na astúcia, na criação de aparências enganadoras para mistificar o inimigo, no avanço por vias inesperadas, na faculdade de adaptação instantânea à situação do adversário, na manobra leve e coordenada dos elementos de combate distintos e na rápida concentração (de força) em pontos fracos.’ E mais adiante: ‘Aquele que se fez mestre na arte da conquista desarma os planos de seu inimigo, deslocando suas alianças. Cavando um fosso entre soberano e ministro, entre superiores e inferiores, entre chefes e subordinados. Seus espiões e agentes atuam em todos os lados, recolhendo informações, semeando a discórdia e fomentando a subversão. O inimigo era isolado e desmoralizado, sua capacidade de resistência quebrada. Assim, sem combate, seu exército seria conquistado, suas cidades tomadas e seu governo derrubado. Somente quando não fosse possível destruir um adversário por esses meios, é que se recorreria à força armada para triunfar’.

Em sua obra, Sun Tzu apresenta treze famosos capítulos: Aproximações; A conduta da guerra; A estratégia ofensiva; Disposições; Energia; Pontos fortes e fracos; Manobra; As nove variáveis; Marchas; O terreno; As nove espécies de terreno; O ataque pelo fogo; A utilização de agentes secretos.

Sun Tzu ao longo de cada um destes capítulos discorre sobre pontos a serem assimilados pelo guerreiro caso queira chegar a bom termo em suas campanhas militares, clamando sempre por prudência – qualidade hoje em desuso - e objetividade analítica, ambas fundamentais a quem se dedique à arte da guerra. A rigor um texto essencial à iniciação do guerreiro, sintético e permanecendo vivo ao longo de 25 séculos, uma das ferramentas de estudo que possibilitou a Mao Tsé-Tung, através de guerrilhas, conquistar o poder central da China em 1949, governando-a a partir de então e criando as bases da China moderna e de seu espantoso crescimento atual. Embora conhecendo muitas derrotas deste o início de sua Marcha em 1935, até a conquista do poder, Mao explicava sua estratégia: "A revolução chinesa será feita com longas e complicadas guerrilhas de gente do campo estabelecendo posteriormente áreas liberadas que se tornarão cada vez mais extensas".( site: http://br.share.geocities.com/fusaobr/mao.htm)

6. Guerreiros da Suíça moderna (também existem!)

Em interessante obra ‘A Praça da Concórdia Suíça’, o jornalista americano John McPhee, então do ‘New Yorker’, narra a sua experiência em treinamentos militares naquele país.

A contracapa do livro, na edição traduzida ao francês de 1986, sintetiza: ‘A Suíça não tem um exército: a Suíça é um exército. Ela não fez guerra depois de quinhentos anos, mas seiscentos e cinqüenta mil homens podem ser mobilizados em menos de vinte quatro horas. Fenômeno único no mundo, este exército reconstitui em sua estrutura secular todas as características sociais, psicológicas e mesmo culturais da sociedade que tem por missão defender’.

Extraí algumas observações do livro em questão, sendo as mais significativas: a) 10% da população suíça é treinada para a defesa de seu território através da estratégia de guerrilha, atuando não só na floresta, como em túneis e em subterrâneos diversos; b) treinamento de sua milícia feito ao longo de trinta anos, por curtos períodos a cada ano, possibilitando à tropa ampliar gradualmente seu conhecimento do terreno nacional para operações de defesa; c) convocação individual, para encontro em pontos específicos identificados pelos comandos; d) adestramento de mobilidade da tropa, carregando armas leves e pesadas, por diversos meios de locomoção; e) desenvolvimento de uma estrutura de defesa contra invasões nas fronteiras, com o apoio de foguetes; f) desenvolvimento de táticas de guerrilha em caso de invasão; g) defesa da população civil em túneis, subterrâneos e porões dos edifícios contra bombas e foguetes; h) utilização de túneis e subterrâneos para armazenagem de bens, alimentação e de equipamentos militares.

Portanto pode-se inferir que tal treinamento do guerreiro suíço se aproxima das técnicas de guerrilha moderna, como demonstrou o exército do ‘Hezbollah’ no Líbano em 2006, ao rechaçar o ataque do exército israelense: mobilidade dos guerrilheiros, frente de combate em contínua mutação e utilização de foguetes de médio alcance, versão moderna do velho ‘ataque pelo fogo’ dos chineses, integrando capítulo específico da ‘Arte da Guerra’ de Sun Tzu, supracitado.

O livro suiço oferece inúmeras observações interessantes, destacando-se apenas as relevantes para identificar o perfil do guerreiro ali forjado. Por outro turno, o livro não aprofunda conceitos referentes aos conhecimentos tecno-científicos que os soldados devam alcançar, mas menciona o treinamento rigoroso experimentado pelos integrantes de seu Estado Maior (pág. 94), bem como a conexão de muitos deles com expressivas empresas e bancos suíços.

7. Mas os ferreiros continuam produzindo!

‘A industrialização da Inglaterra no século XVIII, uma modificação de estruturas econômicas e sociais, prepara a revolução industrial, conceito introduzido por Blanqui em 1837 e por F. Engels em 1845’.(Atlas Histórico da Stock, 1968, pág. 317).

Uma sucessão de novas invenções: emprego do coque na metalurgia (Darby, 1735), máquina a vapor (Watt, 1769), ateliê têxtil (Cartwright, 1785 e Jacquard, 1804) e conseqüentes revoluções na indústria têxtil e dos meios de transporte: navio a vapor (Fulton, 1807), locomotiva (Stephenson, 1814), acabou por transformar a Inglaterra no ‘ateliê industrial do mundo’. (idem, pág. 305)

Descobertas científicas diversas nos séculos XVII e XVIII - na matemática, na física, na biologia e na química - tornaram possíveis as novas invenções, possibilitando à Inglaterra ser o núcleo desta Revolução, inda que com uma população relativamente pequena para os padrões atuais – 13 milhões em 1780 e 27,4 milhões em 1851 – embora já com sua ampla rede de províncias-mercado. (‘The Oxford History of Britain’, 1994, pág. 425)

‘O desenvolvimento industrial não seguiu uma predeterminada ou previsível rota para o sucesso. O processo foi gradual e casual. Adam Smith olhava a indústria com suspeição; mesmo nos anos de 1820, economistas duvidavam que a tecnologia pudesse melhorar os padrões usuais do viver. Em 1688 mineração, manufatura e construção produziam 20% da renda nacional, e em 1800 a manufatura figurava com 25% e comércio e transporte com 23%’. (idem, 424).

Portanto, titubeante a princípio e mesmo criticada, a Revolução Industrial inglesa se espalhou pelo mundo como um novo padrão de produção na história humana, trazendo benefícios muitos e alguns malefícios, entre os quais a otimização das guerras com a introdução final das armas atômicas de destruição em massa, como as bombas jogadas pelos americanos sobre as populações civis de Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945, dizimando-as.

Mas a indústria da guerra, derivada da Revolução Industrial, não eclode com tanta força antes da 1ª Grande Guerra Mundial de 1914/18 que permite testar, além dos armamentos adiante citados, igualmente o uso de gases químicos e até mesmo o principiante avião. O Atlas Histórico supracitado, à pág. 339, cita os principais progressos do século XIX e respectivos inventores: 1835: revólver, Colt; 1836: fuzil à agulha, Dreyse; 1850: submarino, Bauer; 1866: torpedo, Whitehead; 1867: dinamite, Nobel; 1833: metralhadora, Maxim; 1911: carro de assalto, Burstyn.

Da 1ª à 2ª Guerra Mundial, a Revolução Industrial colaborou intensamente, ampliando o poder de fogo à distância, culminando com as bombas atômicas. Viabilizou-se o deslocamento de tropas, com transportes sofisticados, em terra, mar e ar, e ampliou-se o poder de destruição e de morte. E por fim surgem o avião e depois o foguete, novas e sofisticadas formas tecnológicas da guerra pelo ar, cujo protótipo na Antiguidade eram as flechas de fogo e serão amanhã foguetes de todo tipo, com carga nuclear, capaz de infectar alguns quarteirões ao redor de sua queda ou toda uma cidade.

Se ciência e tecnologia, vetores fundamentais da Revolução Industrial, otimizaram a vida do homem sobre a Terra, ampliando-lhe idade média e melhorando sobrevivência e bem estar - alimentação, habitação, transportes, comunicação, saúde e educação – de outro lado, como um verdadeiro ‘eixo do mal’, ciência e tecnologia alimentaram a capacidade de destruição em massa de homens, famílias, cidades e respectiva riqueza, como a recente destruição do Iraque perpetrada pelos Estados Unidos da América nos exibe diariamente na televisão.

Liberado o poder de destruir, restam aos homens e às sociedades nas quais vive, a construção de estratégias de defesa contra o suposto e inesperado ataque alheio, como ensina a ‘História da estratégia militar depois de 1945’ de André Collet, em ‘Que sais-je?’, de 1994, defesas ancoradas mais e mais na capacidade tecnológica e industrial. Ao lado de sintetizar fundamentos da estratégia na história recente, o autor narra a evolução desta doutrina nos principais países do globo: Estados Unidos, União Soviética posteriormente Rússia, China e França.

Sintetiza André Collet as evoluções da doutrina estratégica americana entre 1945 e 1992, a saber: 1947 - ‘Construção de diques’, doutrina do presidente Truman; 1954 - ‘Represálias massivas’, início da dissuasão nuclear, Doutrina John Foster Dulles, adotada pela OTAN; 1962 - ‘A resposta gradual’, General Maxwell Taylor, posteriormente adotada pela OTAN; 1965-74 - ‘Corretivos à resposta gradual’ – ‘Destruição mútua assegurada’ (MAD, 1965), posteriormente doutrina James Schlesinger (janeiro 1974) e Harold Brown; 1976 - ‘A defesa por antecipação’: Conduta de operações explicitada pela Manual de Campanha FM 100-5 Operations; 1982 – Batalha Aéreo-terrestre: nova conduta às operações explicitadas no Manual de 1976, doutrina Rogers própria à Europa; 1990 – Novas Orientações Estratégicas: Presidente Bush, pai, em 1990.

Tais evoluções ou alterações doutrinárias, muito antes de serem alterações correlacionadas a terreno, tropa, gestão ou tipo do ‘inimigo’, são ajustes derivados da evolução tecnológico-militar, novo padrão oriundo da Revolução Industrial, crescentemente explorado pelos países na vanguarda tecnológica.

Mas se outrora se dizia que a guerra era responsável por progressos tecnológicos diversos, como por exemplo, os da ciência médica – para o que, aliás, colaboram igualmente desastres de trânsito – e nos últimos 50 anos os da Guerra Fria, o simples preparo para hipotéticas guerras introduziu uma cunha na Revolução Industrial, fazendo surgir e sistematizando o complexo industrial militar, hoje no poder das grandes potências, essencial para facilitar a transferência de recursos para seu desenvolvimento.

Em ‘Postmodern War’ - ‘The New Politics of Conflict’, publicado em 1997, Chris Hables Gray, Ph.D. em Ciência e Tecnologia na Universidade de Great Falls em Montana, EUA, narra a atualidade das guerras e usos da ciência, as primeira e segunda guerras mundiais, as pós-modernas, - Vietnã ou Golfo -, a hipótese da 3ª guerra mundial, esboçando por fim o futuro, com crescente colaboração entre cientistas e militares, que devem adquirir especializações científicas diversas, num estágio contínuo de pré-guerra, desenhado pelo ‘complexo industrial militar’.

8. Guerreiros e cientistas.

No capítulo à pág. 219, ‘Projeto ‘Forecast II: Força Aérea do Século XXI’ cita tendências desta Força, ensinando que ‘nos projetos futuros o papel de civis independentes têm continuamente declinado, enquanto a importância do pessoal militar com graduação científica trabalhando diretamente com o Departamento de Defesa aumentou proporcionalmente’, acrescentando ainda o ‘significante treinamento de oficiais em disciplinas técnicas e científicas’.

Mudou o padrão duas vezes: o complexo industrial militar se apropriou da Revolução Industrial, tornando-se sua força motriz, e os militares começam a se apropriar deste novo complexo, impulsionando sua performance, para muito além das estratégias doutrinárias clássicas: transformando agora o progresso científico militar na própria estratégia militar, doravante calcada neste progresso.

Assim deve ser entendida e ensinada a Revolução Industrial nas escolas: mudança de padrão, avanço tecnológico e sua transformação última no complexo industrial militar.

No Cap. VII da monografia sobre ‘Guerras Pós-modernas’, Chris Gray abordando ‘Guerra Futura: Planos Militares Americanos para o Milênio’, (págs. 212 a 226) cita o Gen. Hap Arnold, pai da Força Aérea americana, ao dizer que a ‘aliança entre os militares e a ciência era tanto política quanto estratégica’. E acrescenta Gray: ‘Começando em 1945 com ‘Rumo a Novos Horizontes’, os militares americanos iniciaram estudos para entender futuras guerras em termos de futuras tecnologias, juntando, numa série de conferências, futuristas, cientistas, escritores de ‘science fiction’, oficiais militares e burocratas civis’ (pág. 216). Muitos destes estudos se transformaram em parcela da ideologia norte-americana de guerra, transposta ao cinema nestes últimos quarenta anos.

Mas como mencionou Gray neste capítulo, a Força Aérea já busca treinar ‘significante número de oficiais em disciplinas técnicas e científicas’, uma nova iniciação do guerreiro, dentro de um conjunto de reformas para estabelecer a ciência dentro da Força Aérea, entre as quais aponta: ‘estabelecer um Quadro de Assessoria Científica e escritórios de ciência em comandos como os de inteligência; investir num largo programa de Pesquisa e Desenvolvimento com conexões a universidades e laboratórios industriais e fundar novos laboratórios de pesquisa para a Força Aérea, além do treino de oficiais em ciência (pág. 217).’

E conclui: ‘A Força Aérea tem liderado o caminho para institucionalizar a guerra pós-moderna, especialmente o papel da ciência e a inovação da inovação’.

Da pele do urso ou do javali, aos uniformes tecnológicos do ‘cyborg’, o impulso do guerreiro se sofistica e se transmuta, alquimicamente, mas é o mesmo padrão cultural que percorre esta história pouco conhecida entre nós: a da iniciação do guerreiro.

9. Mitos iniciáticos dos guerreiros

Os mitos continuam vivos, auxiliando a compor a iniciação do guerreiro no campo ético e emocional. O Ocidente é farto destes mitos desde os lendários Cavaleiros da Távola Redonda, reunidos em torno do Rei Artur, na remota ou mítica Inglaterra de seu tempo primordial, reatualizados nos tempos das Cruzadas – séculos XII e XIII – com a saga dos Templários, conservada na tradição maçônica de origem quer inglesa quer escocesa, saga a que se seguem os muitos heróis de guerra – e não foram poucos na História Moderna, a partir do século XVI – até, por exemplo, o atual James Bond, um surpreendente J:.B:., guerreiro moderno, com resistência física e intelectual surpreendentes, carregando consigo a ‘licença imperial para matar’ os inimigos do reino britânico, equipado com armas e tecnologia de vanguarda, cristalizando em si o máximo de performance a que um guerreiro, atuando quase que isoladamente, logra alcançar.

Os mitos continuam vivos em diversos graus maçônicos – Cavaleiro Templário, Cavaleiro de Malta, Cavaleiro Rosa Cruz, Cavaleiro da Cruz Vermelha de Constantino – para citar apenas os mais conhecidos, contudo sempre relembrados e suscitando sua contínua reelaboração, uma forma iniciática teórica.

10. Concluindo: a contínua e evolutiva iniciação do guerreiro

Ao início destes Apontamentos, mencionávamos a expressão de Eliade sobre a iniciação: ‘um conjunto de ritos e de ensinamentos orais, que persegue a modificação radical do estatuto religioso e social do sujeito a se iniciar. Filosoficamente falando, a iniciação equivale a uma mutação ontológica do regime existencial. Ao fim de suas provas, o neófito goza de outra existência que a anterior à iniciação: tornou-se um outro.’

O neófito que se submeteu à iniciação do guerreiro, gradualmente a assimilará, transpondo os muitos estágios culturais e civilizacionais que a expressaram ao longo da História, até o momento atual, marcadamente técnico em sua forma de ser, mas nem por isto menos mítico.

E mítico porque, como ensina Eliade: ‘A iniciação introduz o neófito na comunidade humana e no mundo dos valores espirituais. Aprende comportamentos, técnicas e instituições dos adultos,’ - por exemplo a História das guerras, de suas técnicas e respectivos armamentos –‘ como também mitos e tradições sagradas da tribo, nomes dos deuses e a história de suas obras: aprende, sobretudo as relações místicas entre a tribo e os Seres sobrenaturais assim como foram estabelecidas na origem dos tempos’.

Medita continuamente sobre os heróis guerreiros de seu povo, de sua tribo ou de sua História, por leitura, narração, ou pelo cinema que, ao trazer à tela os muitos heróis do passado – Cavaleiros do Rei Artur, Templários e James Bonds – desempenha um papel suplementar de iniciador simbólico ao mito de guerreiro.

E por fim ensina Eliade: ‘É, pois aos conhecimentos tradicionais (da instituição guerreira a qual se filia) que têm acesso os neófitos. São longamente instruídos por seus tutores; assistem a cerimônias secretas, sofrem uma série de provas, e são, sobretudo estas que constituem a experiência da iniciação: o reencontro com o sagrado.’

No caso em pauta, o reencontro com o mito do guerreiro, da forma em que este mito possa ser reassumido a cada momento histórico: na Grécia de Alexandre o Grande, com determinado formato; na Roma de Júlio César, outro. E assim, reencarnando-se e se atualizando continuamente através da História: na Idade Média, com as Cruzadas e os Templários; na Renascença, com conquista do Novo Mundo e do Oeste americano, pelos invasores europeus; depois com a iniciação nos exércitos regulares e nas muitas guerras que se sucederam, como as I e II mundiais e, por fim, hoje neste preparo para guerras inimagináveis com amplo suporte tecnológico.

A evolução das técnicas da atividade do guerreiro, a exigir doses menores de esforço físico, em benefício de crescente esforço intelectual, tal evolução se faz a partir, de um lado, de uma iniciação básica que desvenda, à cada época, o verdadeiro guerreiro, que se apossa de sua mitologia com plena consciência de seu processo iniciático, fatores determinantes para sua transformação interior e seu reencontro com o sagrado, arcanos que lhe compete assimilar.

A iniciação do guerreiro, por novos e inesperados caminhos, continua a se fazer na história do homem, apenas acrescida de novos padrões quando comparada à iniciação ‘daquele tempo’ ancestral, hoje enriquecida, inda que como sempre recôndita e enigmática.